8. MUNDO 4.9.13

PRONTOS PARA A GUERRA

Informaes do servio de inteligncia dos EUA responsabilizam o ditador Bashar al-Assad pelo ataque qumico na Sria e foras militares do Ocidente se unem para uma provvel interveno no pas
Mariana Queiroz Barboza

Para os Estados Unidos, no resta dvida: o ditador Bashar al-Assad usou armas qumicas no massacre que, h duas semanas, matou centenas de civis  muitos deles mulheres e crianas  no subrbio de Damasco, na Sria. Ns conclumos que o governo srio de fato os executou, disse o presidente americano Barack Obama numa entrevista  rede de tev PBS, referindo-se aos ataques. Se  assim,  preciso haver consequncias internacionais. Essa pode ter sido a ao de armas qumicas mais letal desde 1988, quando milhares de curdos foram mortos pelo efeito de gases lanados pelas foras de Saddam Hussein no Iraque. Nas palavras do vice-presidente Joe Biden, o primeiro a revelar que a posio de cautela dos EUA havia mudado graas a informaes vindas do servio de inteligncia, o que se deu na Sria foi nada menos do que um crime hediondo.

O apoio imediato dos tradicionais aliados dos americanos comprovou que o cenrio de guerra se aproxima. Frana e Turquia se uniram a uma possvel coalizo depois que China e Rssia bloquearam, no Conselho de Segurana da ONU, uma resoluo proposta pelo Reino Unido que autorizaria o uso da fora. David Cameron, primeiro-ministro britnico, interrompeu o recesso de vero do Parlamento para convocar apoio  interveno, argumentando que era do interesse de todos manter o tabu internacional contra o uso de gases venenosos no campo de batalha. Como lembrou o jornal Guardian, foram oito intervenes ocidentais em pases rabes ou muulmanos nos ltimos 15 anos e cujos resultados so duvidosos. Falando aos deputados, Cameron fez questo de dizer que, dessa vez, a situao  diferente da Guerra do Iraque, de 2003. No estamos invadindo um pas  procura de armas qumicas ou biolgicas, afirmou. O argumento no foi suficiente e o Parlamento votou contra a ofensiva na quinta-feira 29. Sem seu mais fiel aliado, a Casa Branca sinalizou que estaria disposta a uma ao unilateral.

DIPLOMACIA - Ban Ki-moon, da ONU (acima), e David Cameron, premi britnico, no chegaram a um acordo

O foco, nesse caso, estaria em centros militares e bases areas. A estratgia esperada pelos analistas envolve lanamentos de msseis Tomahawk por navios de guerra e submarinos localizados no Mar Mediterrneo. Como um ataque punitivo a Assad, no dever durar mais do que trs dias. Antes disso, porm, os EUA e seus aliados precisam justificar legalmente a ao. Para muitos especialistas, os argumentos pr-interveno so baseados em suposies e no em evidncias inequvocas e informaes pblicas. Para os governos ocidentais, o motivo  humanitrio e tem como objetivo deter e dissuadir o uso de armas qumicas. Superada essa etapa, h outros riscos envolvidos. O primeiro  de o ataque no alcanar nem os objetivos militares de curto prazo nem os objetivos polticos de longo prazo, disse  ISTO Robin Wright, pesquisadora do U.S. Institute of Peace e do Woodrow Wilson Center, de Washington. Segundo ela, ataques militares so infrutferos a no ser que venham acompanhados por aes diplomticas que ofeream propostas para encerrar o conflito srio. Outro risco  ampliar a guerra ao legitimar ou aprofundar o envolvimento de foras estrangeiras, principalmente o apoio iraniano e russo a Damasco, afirmou Robin.

H no muito tempo a maior dor de cabea de Obama na poltica externa, o Ir, aliado de Assad, tem poder para ampliar a crise na regio. Isso porque os parlamentares mais inflamados j esto pressionando o novo presidente Hassan Rohani, um moderado perto de seu antecessor, a avanar sobre Israel como ttica de retaliao. As consequncias desse cenrio so imprevisveis. Segundo a Agncia Internacional de Energia Atmica, o pas acelerou, nos ltimos trs meses, a expanso de sua capacidade para enriquecer urnio, o que alimenta os temores internacionais de que Teer produza uma bomba atmica. Israel avisou que, se for atingido, responder militarmente. Por outro lado, embora os americanos tenham deixado claro que o objetivo de uma interveno no seja derrubar o governo de Assad  muito provavelmente porque no h uma fora poltica suficientemente unificadora e pacfica para substitu-lo , o enfraquecimento do ditador com o ataque pode beneficiar radicais islmicos da oposio, o que inclui membros da Al Qaeda e do Hezbollah.

ZONA DE COMBATE - Acima,  esquerda, soldados leais a Assad mostram suas armas em Aleppo. Navio de guerra americano chega ao Mar Mediterrneo

Alm da sombra da invaso ao Iraque h dez anos, cujos argumentos de que Saddam Hussein possua armas de destruio em massa foram amparados em informaes falsas, pesa sobre as potncias ocidentais o futuro dos srios para alm das armas qumicas. Dos 100 mil srios que morreram no conflito,  muito maior o nmero dos que foram atingidos por balas e ataques de artilharia do que por sarin ou outros produtos qumicos letais, disse, em relatrio, Daniel Byman, diretor de pesquisas do Saban Center for Middle East Policy do Instituto Brookings, de Washington. Ento, mesmo que os EUA sejam capazes de fazer a Sria parar de usar armas qumicas, por si s isso salvar poucas vidas. Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations, segue a mesma linha de raciocnio. Em conversa com jornalistas, ele questionou: Se fizermos esses ataques, para mandar uma mensagem sobre as armas qumicas, mas o regime continuar a matana de srios por meios convencionais, ainda poderamos consider-los teis ou at bem-sucedidos?

Na espera pelo pior, os moradores de Damasco intensificaram nos ltimos dias o ritual que seguem desde o incio da guerra civil e correram aos supermercados, bancos e caixas eletrnicos. Po, gua, comida enlatada, baterias e alimentos no perecveis estavam no topo das listas dos consumidores, de acordo com relato da agncia Reuters. Ao mesmo tempo, os russos aceleraram a retirada de seus cidados de territrio srio. Desde janeiro, 730 deles deixaram o pas em avies oficiais que levam  Sria ajuda humanitria e saem de l carregados de pessoas para quem essa guerra j foi longe demais. O problema  que ela pode estar apenas comeando.


IMPOPULAR - Para Joe Biden, vice-presidente dos EUA (acima), o ataque com armas qumicas a Damasco h duas semanas foi -hediondo-. Mas, para muitos britnicos que foram s ruas protestar (abaixo), a interveno militar no  a melhor resposta

